sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O MAPA DA FOME NO BRASIL


Nas pegadas do profeta dos excluídos
Publicado em 05.09.2008
O JC percorreu os nove Estados nordestinos, além do Tocantins, pararefazer o mapa da fome de Josué de Castro
Sem fazer alarde, silenciosa e sorrateira, como um bicho que se enfiapelo mato, a fome corrói os lares miseráveis do Sertão nordestino e dobrejo dos canaviais. Faz estrago sem pressa. Matando aos poucos, surdae continuadamente, seu exército de famintos. Nas duas regiões, umaárida pela própria natureza e a outra erodida pelo homem, omal-assombro se espalha, na sua versão mais perigosa. De forma oculta,camuflada num prato de feijão, num cuscuz de milho, que se come diasim, dia não. O Jornal do Commercio se embrenhou nos mangues, na Zonada Mata pernambucana e pelo Semi-Árido dos nove Estados do Nordeste efoi até Tocantins, no Norte do País, para refazer os caminhos traçadospelo médico e geógrafo Josué de Castro no livro Geografia da Fome,publicação que acordou o Brasil para o flagelo dos que nada ou poucotêm para comer.
Na jornada de quase 10 mil quilômetros por estradas esburacadas e empoeiradas onde deságuam todas as veredas e sertões, a reportagemdescobriu que o monstro da fome amansou, comparado ao tempo em que Josué de Castro o revelou para o mundo. Mas está longe de ser domado. A velha esquelética do chapéu grande, como os sertanejos deantigamente retratavam a figura da fome, persiste, alimentada por umamiséria que separa os que têm e podem quase tudo dos que não têm nada. Uma legião de excluídos que no Brasil somam quase 14 milhões. Quatorze milhões de bocas incertas da comida de amanhã. Hoje, data em que Josué de Castro completaria 100 anos, é a audaciosavoz do cientista e, sobretudo, do homem, que conduz a viagem feitapelas próximas páginas deste caderno especial. Uma viagem pela regiãoque, segundo o próprio Josué, solidificava a ultrajante condiçãohumana do brasileiro. O Nordeste, esse "imenso cenário de cerca de 600mil milhas quadradas de superfície, exibindo, por toda parte, ossinais inconfundíveis de seu sofrimento cósmico." O geógrafo,sociólogo, escritor e também político Josué morreu há 35 anos. Suaobra, no entanto, reverbera cada vez mais alto pelos cantos dos finsde mundo, nas palavras que ecoam em constrangidas panelas vazias.Na jornada pelos caminhos da fome, a reportagem achou personagens daciência e da literatura de Josué, conheceu aqueles que conseguiramsubverter a ordem do sistema agrícola e cruzou a região das fomesclassificadas pelo próprio Josué como endêmicas, as que, entra invernoe sai inverno, não passam. Porque a endemia dos famintos brasileiros está relacionada a acesso e não à disponibilidade de comida.É no mesmo Brasil das safras recordes que se chora por comida. É nomesmo Brasil que louva o agronegócio das toneladas de grãos que se dóide fome. Hoje, o maior acesso à alimentação tem agora nome de batismo:Bolsa-Família. Se com ela o cenário é de penúria, sem ela seria degenocídio. O assistencialismo no País das abundâncias se enraíza porterras secas de outras alternativas. Homens e solo sedentos por umareforma agrária longe de ser concretizada.Como cúmplice de uma predadora economia global, o Brasil entra assim na roda das especulações financeiras que transformam comida em artigo da Bolsa de Valores. O que para Josué de Castro deveria ser entendido como umdireito do ser humano, se torna dinheiro vivo nas mãos de transnacionais. É, portanto, nesse cenário de grandes volumes numéricos que a obra de Josué ganha força. Porque não é genérica, e sim individual. Josué está de tocaia, desafiando as predições do desenvolvimento.Para Frei Betto, que já esteve à frente do cenário político comoassessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e foi um dosmentores do programa Fome-Zero, Josué ainda é "um profeta do futuro"."Suas idéias e propostas são louvadas, porém pouco ou nada praticadas.É preciso divulgá-las por toda parte, em todos os meios decomunicação, para que o Brasil fique livre, definitivamente, de suamaior chaga: a fome de milhões de pessoas."Nas próximas páginas, a obra de Josué de Castro será divulgada não porsuas palavras, mas pelas histórias daqueles que formaram a visão demundo desse pensador. São relatos muitas vezes de dor extrema, tãoaguda que muitas vezes anestesia e se cala. Em um Brasil que não podemais se alimentar de suas vergonhas.
CAMINHOS DA FOME
A tragédia anunciada da morte sem rosto
Publicado em 05.09.2008
Enquanto o Jornal do Commercio produzia este caderno especial sobre afome no Nordeste, uma criança se foi. Mais uma. Joselânio Ângelo deOliveira, 5 meses, morreu vítima de desnutrição, no último dia 28 deagosto. Treze dias antes ele havia sido internado no Hospital Regionalde Ouricuri, com um quadro grave de carência alimentar. O garotomorava em Bodocó, no Sertão de Pernambuco. Joselânio estava inchado,pernas e rostos com as marcas da fome. A transferência foi rapidamenteprovidenciada. Em menos de 24 horas, o menino foi levado para o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), no Recife. Joselâniofoi forte. Agüentou firme a passagem na emergência, chegou a entrar noprocesso de recuperação, mas começou a perder peso e não resistiu.Por culpa do ofício, a nutricionista do Imip Alyne Souza é obrigada aver crianças como Joselânio perderem a guerra para a mortalidadeinfantil. Mas não se acostuma nunca. "Quando eles chegam muito grave,fazemos de tudo para tentar recuperá-los. Joselânio estava indo bem.Mas, dois dias antes, começou a vomitar e o peso caiu muito", contou.No mesmo dia que Joselânio deu entrada no Imip, outro garoto tambémchegou ao hospital, vindo do mesmo Sertão pernambucano e com o mesmoquadro grave de desnutrição. Wesley Delmondes Souza, 11 meses, moradorde Ouricuri, no entanto, teve melhor sorte. O menino conseguiu ganharpeso e está prestes a receber alta.Júnior, 8 anos, o garoto da foto ao lado, trilhou o mesmo caminho. Elemora no distrito de Ouricuri e, como muitas crianças do Sertão, quasemorre de desnutrição antes de completar o primeiro ano de vida. Foiinternado, ganhou peso, mas carrega as conseqüências da infânciadifícil. Demorou para andar e quase não fala. Vai para a escola, masnão aprende nada. Vai e volta todos os dias, sem conseguir dizerdireito o próprio nome.De tão magro, o menino anda segurando o short que não se sustenta nocorpo. Quando arrisca correr, logo tropeça e cai. A mãe diz que ele é"quieto mesmo". "Desde pequeno que é assim. Tem mais jeito, não. Eleescapou de morrer, mas acho que nunca vai ser igual aos outros",lamenta Rosilene de Jesus da Silva, 31, mãe de mais cinco filhos.
Meninos com histórias que se repetem. Com finais ora previsíveis, orade superação. Nunca fáceis de contar.CAMINHOS DA FOMEA miséria que cegaPublicado em 05.09.2008Casos registrados no Sertão pernambucano desafiam as estatísticasoficiais de desenvolvimento social e revelam a tragédia de criançasque perderam a visão por falta de comidaAna Vitória sobreviver é um milagre. Sua existência, um incômodo. Aosolhos e à condição mínima do que se costuma chamar dignidade. O corpomirrado pela ausência de tudo. Difícil adivinhar a cor de sua pele.Não é preta nem branca. É pele de cobra, coberta de feridas, inchandonuns lugares, murchando noutros. Ana Vitória escapou das garras damorte, mas foi marcada pelo círculo de ferro da fome. A falta decomida fez seus dois olhos secar. Secaram até cair, esfarelando-se empedaços, desmanchando-se no espetáculo do absurdo. Ana Vitória ficoucega, desnutrida de alimento e esperança. Seu rosto é um gritodesesperado de socorro. O retrato extremo de um Brasil que passa fome.A menina de 1 ano e 2 meses foi definhando aos poucos, um dia de cadavez. Vivia de garapa, água com farinha, raramente bebia leite. Nãodemorou para a tragédia aninhar-se no barraco de taipa, cercado deesgoto e lixo, na periferia de Floresta, Sertão do Estado, onde AnaVitória vive com a mãe e os quatro irmãos. Há quase dois meses, quandofoi internada no Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip),tinha virado pele e osso. A fome havia modelado seu corpo. Era umlivro de desnutrição completo. Nem dava para dizer os nutrientes quefaltavam. Faltava tudo.A ciência ensina o que aconteceu com Ana Vitória: chama-sehipovitaminose. Uma doença da fome. Ela ficou cega de tanto o corpo procurar e não achar o mínimo de vitamina A para alimentar os braços,mover as pernas, irrigar os olhos. A menina conheceu a fome ainda nabarriga da mãe. Josivânia dos Santos, 23 anos, mulher negra eanalfabeta, chegou a prostituir-se para dar o que comer à filha. Pediade porta em porta, ganhava aqui e ali um pacote de feijão, um quilo dearroz, caridade de vizinhos quase tão miseráveis quanto ela. Quandonão conseguia, não comia. Nem ela, nem os filhos.Na semana passada, as duas voltaram para casa. Mas não existia maiscasa lá. O barraco de taipa, onde a família morava de favor, tinhavirado um monte de escombros. Foi derrubado para dar lugar a umaresidência de tijolo, que Josivânia também não terá dinheiro paraalugar. "Ainda não sei o que fazer. Por enquanto, vou me virando pelacasa de uma irmã, de um vizinho. Até Deus ajudar", diz, num desamparosó.No futuro, Ana Vitória vai ganhar olhos de vidro. Rafael, 1 ano e 6meses, habitante do mesmo planeta fome, parece já ter o seu. Ele ficoucego do olho direito. O garoto mora em Ipubi, também no Sertãopernambucano, terra generosa em fabricar meninos desnutridos. Quandoera só pele, ossos e feridas, Rafael começou a criar uma nata nosolhos. A mãe não sabia mas era a remela da fome. Maria Ivonete Freire,26, tem dificuldade de entender o que aconteceu com o filho. "Elepegou isso no hospital. Saiu de casa apenas com diarréia. Mas não foipor nada não. Foi só porque estava muito desnutrido", diz, num mistode ignorância e desleixo.O JC encontrou o menino, no meio da tarde, ainda sem almoçar. Choravade fome e estava com o corpo quente, febre que a mãe nem sequer havianotado. Maria Ivonete se apressa para fazer um mingau de arroz, aúnica comida da casa. Questionada sobre o que Rafael e os outros trêsfilhos iam comer mais tarde, a mãe responde que, à noite, "a gentejanta qualquer coisa e vai dormir". "E o que é qualquer coisa?", quissaber a reportagem. Desta vez, só o silêncio como resposta.Ana Vitória e Rafael desafiam o Brasil das estatísticas oficiais. Nosúltimos dez anos, o País viu a quantidade de suas crianças desnutridascair pela metade. Uma notícia boa, mas perigosa. Porque asestatísticas médias costumam camuflar a verdade. Fazem tragédiasparticulares se perderem na frieza dos números. Escondem históriascomo a de Ana Vitória e Rafael. Como se fosse possível esquecer aexpressão de horror impressa nos rostos dos meninos cegos pela fome.
CAMINHOS DA FOME
Chagas de um flagelo sem fim
Publicado em 05.09.2008
As marcas no corpo de Manuel, 4 anos, são um pedido de socorro. A mãeespera, em vão, a cura pela féO corpo de Manuel Ferreira da Costa, 4 anos, carrega as chagas dafome. Ali, no Sítio São João, distrito de Ouricuri, Sertão dePernambuco, a morte anda à espreita. Ronda o barraco de barro deFrancisca Maria de Jesus da Costa, 45, um lugar miserável impregnadopelo cheiro de lixo e de cachaça. Manuel não fala. Não chora. Malanda. Acostumou-se à dor como se já tivesse nascido com ela. Suasferidas expostas denunciam a miséria que o levou ao grau mais grave dedesnutrição, bem abaixo da linha vermelha que, no cartão que mede opeso das crianças, separa a vida da morte.O menino precisa de um médico urgente, mas Francisca, a mãe, parecenão perceber que seu filho pede socorro. Ela prefere tratar as feridasespalhadas pelo corpo do garoto com o remédio da fé. Passa a"legítima" Pomada do Padre Cícero, um potinho redondo que consegueapenas estancar o sangue que sai das chagas de Manuel. "Quem anda comDeus, com Deus se acaba. Eu tenho fé que ele vai ficar bom", diz, sementender que a doença que corrói a pele do filho se cura com comida,não com reza.Em vez de tratamento, Manuel passa fome e perde peso. O corpo minguadoestava ainda mais magro, quando a reportagem pediu a um agente desaúde que o pesasse. Pouco mais de 11 quilos, quando deveria ser quaseo dobro. Suas pernas finas se confundem com as de Francisca. Mãe efilho têm pele de velho. Em menos de 15 dias, o menino havia deixadoescapar quase um quilo. Estava se acabando a olhos vistos. Mas nãosentia nada, nem tinha como sentir. Francisca, além da fé em Deus,gosta de seguir as crendices dos homens. Ensinaram a ela que paraajudar a aliviar a dor devia dar ao filho diclofenaco, um analgésicoindicado para inflamações e edemas. E é isso o que ela faz. Dissolveum comprimido na mamadeira com água e dá para Manuel beber, "dia sim,dia não", assim que ele acorda.O menino toma o remédio de barriga vazia. O JC chegou à casa deFrancisca às 7h e os filhos, sete ao todo, ainda estavam levantando.Manuel dormia nu. O lençol que lhe cobria o corpo estava sujo dosangue de suas feridas. A conversa avança, a hora passa, e nada decomida para as crianças. Na casa só tem café, um quilo de arroz eoutro de feijão. A reportagem abre um pacote de bolacha, trazido naviagem. Os meninos molham o biscoito no café e comem ali mesmo nochão, o mesmo chão de barro batido onde, há alguns meses, o pai foiassassinado com três tiros, na frente dos filhos. Pagou com a vida umadívida de R$ 10. Os meninos nem ligam. Estão anestesiados. Misturamfome e violência no mesmo prato do abandono.Francisca vive do Bolsa-Família (R$ 92) e de uma pensão de um saláriomínimo (R$ 415) que passou a ganhar após a morte do marido. O dinheiropouco para a família grande não vai só para comida. É gasto também combebida, porque se Francisca não tomar "pelo menos dois dedos de cana"seu corpo bota para tremer. Faz isso logo quando acorda. Por isso areportagem chegou tão cedo a sua casa. Antes que ela começasse atremer e corresse para o bar. O vício da mãe ameaça os filhos. Numaconversa reservada, José, 8, irmão de Manuel, entrega que já tomoucachaça e cerveja. "Quando bebi Pitú, fiquei tonto e com sono",confirmando uma desconfiança da agente de saúde que, estarrecida,sentiu o bafo de álcool na criança na hora da pesagem.Pressionada, Francisca promete levar Manuel ao médico. É, pelo menos,meia hora de caminhada a pé, o que torna tudo mais complicado. Parafacilitar, o JC acompanha a agente de saúde até o posto e a consulta émarcada logo para o dia seguinte. O menino tem pressa. E sorte deainda estar vivo, resistindo ao drama de uma desgraça anunciada.
CAMINHOS DA FOME
Os esquecidos no Cafundó do Sertão cearense
Publicado em 05.09.2008
Bem-vindo ao Cafundó, a terra do esquecimento e do abandono. Aonde sóse chega após 45 minutos de caminhada subindo uma serra que leva aoencontro de famílias vivendo muito abaixo do que se convencionouchamar linha da pobreza. O mal-assombro da fome pesa sobre a serra e agente, transformando tudo em privação. Não há energia, saneamento,água encanada, casa de tijolo. Quando os velhos adoecem ou precisam irà cidade, descem a serra carregados numa rede, como se o tempo alifosse ainda o das cavernas. O povo do Cafundó vê o município de Choró,no semi-árido do Ceará, do alto, mas não se sente parte dele. É o povoda fome, onde as crianças crescem tomando garapa e os adultos tentam,em vão, exercitar a esperança.O sol e o calor dão às casas de taipa do Cafundó uma aridez sufocante.É a primeira vez que uma equipe de reportagem sobe a serra paradescobrir como vive essa gente isolada de tudo e de todos. Lá,vive-se, sobretudo, de improviso. Ronaldo, o garoto com nome decraque, joga futebol com uma bola feita de bolsas plásticas. Enrolavárias. Uma nas outras, até achar o tamanho certo. Ele nunca ouviufalar dos outros Ronaldos, o Fenômeno e o Gaúcho. Mas garante tervocação para artilheiro. Ronaldo e as outras crianças do Cafundó sóvão à escola três vezes por semana, porque não agüentam subir e descera serra os cinco dias completos.O progresso esqueceu de chegar à terra do nada, lugar onde antigamenteé um tempo que não passou. No sofrimento e na resignação. BeneditaGomes de Souza, 29 anos, mãe de cinco filhos, cumpre sua sina semreclamar demais. "O mesmo choro de fome do meu filho foi o que euchorei. Eu passei o que a minha mãe passou. E a gente passa tudo issoporque Deus quer", diz, como se destino fosse herança. Na casa deBenedita só tem feijão para comer. Sem farinha, sem arroz e,principalmente, sem mistura, como o povo mais simples costuma chamar opedaço de carne. A saga de Benedita e de outra família do Cafundó vaiparar no cinema. Foi filmada pelo diretor José Padilha, nodocumentário Garapa, que mostra o drama do Brasil que tem fome.O mundo restrito da serra ficou ainda menor para Francisco Gomes deSouza, 55, que sofre de anemia grave. Suas pernas endureceram, ele nãofoi ao médico e terminou paralítico. Há um ano, sua vida se resume auma rede. É lá que ele passa todas as horas do dia. Faz ali mesmo suasnecessidades fisiológicas e tenta espantar a tristeza que sempreencosta, quando pensa na vida que leva. A esposa Zilda Pereira daSilva, uma senhora de 62 anos, arrasta-se pelo chão para cozinhar nofogão a lenha cavado num canto da sala. Ela prefere cozinhar sentadaporque as pernas já estão cansadas demais. Vê-la se movimentando pelochão de barro batido faz lembrar a coreografia dos homens-caranguejo,agachados na lama do mangue, rastejando atrás de alimentos.Emanuel Gomes de Souza, 88, nascido e criado no Cafundó, também passao dia na rede, olhando o infinito pela porta do barraco. Vez ou outrafica na frente de casa, para pegar um pouco de sol nos ossos. Ele e amulher, Francisca Pereira da Silva, 90, são os moradores mais velhosdo Cafundó. Com a aposentadoria, sustentam filhos e netos. Só deixam aserra uma vez por ano, quando precisam ir até a cidade provar ao INSSque estão vivos. Descem e sobem na rede, carregada por filhos e netosque, quando ficarem velhos, também serão levados da mesma forma. NoCafundó é assim. O ponteiro do relógio parou no tempo da miséria e serecusa a passar.
CAMINHOS DA FOME
Um choro amargo da alma faminta
Publicado em 05.09.2008
No mergulho pela nova geografia da fome, o choro de Marta soou como umbaque. Diferentemente de todas as lágrimas que se viu na jornada peloslares famintos do Nordeste árido e seco de esperança. Não era um chorode humilhação, de resignação, de tristeza por não ter o que comer. Dequem aceita o destino porque assim Deus quis. Mas um choro-explosão,um choro-revolta, um choro de indignação e de vergonha porque assim ohomem quis. Marta Maria da Silva, 28 anos, é analfabeta e parece ter aexata consciência de que o flagelo da fome, imposto a ela e aos seustrês filhos, não é obra divina. E sim humana. Coisa do homem contra ohomem. E isso ela se recusa a aceitar.Marta vive num povoado da Paraíba conhecido como Vila dos Costas,município sertanejo de Natuba, mas, na falta de outro nome, poderiamuito bem chamar-se Fim do Mundo. Só para chegar à sede da cidade,foram 18 quilômetros de estrada de barro esburacada que consumirammais de três horas de viagem. Famílias que vivem como refugiadas. Asterras onde moravam foram inundadas pela barragem de Acauã. O governolevantou as casas no endereço novo, mas se esqueceu de levar dignidadepara a nova morada. Ali, isolada do mundo, Marta passa fome emsilêncio.Um silêncio que foi quebrado pelo choro incontido. Quando a reportagempediu licença para conhecer sua cozinha, descobriu que no armário deduas portas tudo o que tinha era resto. Restos de fuba, de sal e umpacote aberto de açúcar. O arroz e o feijão tinham acabado há umasemana. O fogo a lenha estava apagado e as panelas, vazias. Era pertode meio-dia e Marta ainda não tinha comido nada. Nem os vizinhos,acostumados à privação, sabiam do seu desespero. "Ela não pede nada aninguém. Sofre sozinha no seu canto. Cuida dos filhos e ainda tomaconta de dois sobrinhos", emenda uma amiga. Para Marta, pedir éhumilhação.Justamente pelo seu jeito discreto, quase cabreiro, o choroimpressiona. A conversa já tinha se encerrado quando ela explode emseu desespero. Começa baixinho, até não segurar e desabar num prantoque só encontra amparo no filho de 2 anos. Marta abraça o menino, usaas mãos dele para enxugar suas lágrimas. Tenta, mas não consegueacalmar-se. "Ninguém merece passar por isso. Ninguém", repete, antesde esconder-se no quarto, para chorar mais alto e sozinha.
CAMINHOS DA FOME
Morte sorrateira do exército miserável
Publicado em 05.09.2008
No dia em que o autor de Geografia da Fome completaria 100 anos, umalegião sofrida mostra a cara e a indisfarçada vergonha de quem não temo que comer no século 21"História de fome não é história que se conte", dizia Zé Luís, oretirante de Homens e Caranguejos, único romance escrito por Josué deCastro. No semblante da indisfarçada vergonha de não ter o que comer,o homem emudece. E é para contrariar essas dores caladas, que ashistórias do mapa da fome nordestina serão aqui documentadas, seja compalavras ou com choro. No dia do centenário do homem que rompeu com aconspiração de silêncio acortinada pela vergonha dos famintos, e nomomento em que o Brasil comemora índices cada vez mais baixos depobreza, a fome continua matando devagar milhões de pessoas. Um vexameque não acaba e que, no galopar do desenvolvimento, corre o risco dese esconder atrás de números vistosos, nas emboscadas das estatísticasque revelam melhoras, mas não fotografam os rostos daqueles que, adespeito de tudo, ainda sobrevivem do lado mais rasteiro dos gráficos.Josué de Castro, o cientista dos homens insultados pela fome e criadorde personagens como Zé Luís, conhecia bem os perigos daspressuposições. Quando começou a escrever, nos anos 30, acreditava-seque a fome no mundo era um problema natural, provocado pelocrescimento demográfico. Mas Josué, em sua medicina humana, colocou odedo na ferida e desvelou a fome como sintoma maior de doençaspolíticas. Com isso, ele apontava para os perigos dos disfarces de quea miséria pode se vestir: "Muito mais terrível do que um surtoepidêmico e do que o flagelo periódico das secas que dizimam de umavez algumas centenas e milhares de vidas é esta desnutrição, estasubalimentação permanente que destrói surda e continuadamente toda umapopulação, sem chamar nossa atenção", escreveu o médico pernambucano.Mesmo silenciosa, a fome não se deixa enganar.Ela mora, implacável, na casa da agricultora Francisca da ConceiçãoSouza, 49 anos, matriarca da família que se alimenta de luz. Eramquase 17h, quando a reportagem estacionou o carro no terreiro de donaFrancisca, na zona rural de Ipubi, no Sertão de Pernambuco. Ninguémali havia ainda almoçado. Àquela hora, tudo o que crianças e adultostinham comido era um beiju de mandioca com café pela manhã. Os meninosacordaram pedindo comida. Como não havia, e a hora avançava, donaFrancisca foi tratar de arrumar. Com autorização do dono, catou umasfavas no roçado vizinho. O que conseguiu juntar estava cozinhando napanela quando o JC chegou a sua casa."Só peço no derradeiro apuro, porque é humilhante passar fome. Jáinteirei dois dias sem comer, mas ver as crianças de barriga vazia eunão agüento", confessa, sem conter as lágrimas. A desnutrição gravecomprometeu o futuro de um dos seus netos. O menino, de 6 anos, quasemorre. "Já estava na conta dos anjinhos", diz a avó. Escapou, mas aspernas finas andam com dificuldade. Dona Francisca diz que o meninonão fala, é meio "anormal". A família agora tenta aposentá-lo. Naterra da fome, crianças já nascem velhas.Em Pilão Arcado, no Sertão da Bahia, Evilásio Ferreira dos Santos, 56,também sonha com a aposentadoria. Nunca foi ao médico, nem pisou numaescola. Vive com um filho, desde que a mulher se separou, levando comela o cartão do Bolsa-Família. Faz 20 dias que ele não arruma um diade serviço. Nenhum centavo. Na casa de seu Evilásio não havia nadapara comer. Em outros lares sertanejos, a reportagem ainda encontravaum resto de feijão, um pacote de arroz, um punhado de farinha demandioca ralada. Mas na dele todas as panelas estavam vazias. Como seuEvilásio vive? "Pelejando, enganando a barriga". Josué de Castro, emseus escritos, completa a frase do velho sertanejo: "Só existe umapergunta a formular: Como se pode comer assim, e não morrer de fome? Esó há uma resposta a dar, se bem que um tanto desconcertante: 'Como?Morrendo de fome'".
CAMINHOS DA FOME
Carência extrema ressuscita beribéri
Publicado em 05.09.2008
Terra para alimentar bicho, e não gente. Hectares e hectares de pastoverde e vistoso. Gado gordo, homem magro. No Maranhão, Nordestebrasileiro, a natureza cobrou um preço alto pela devastação que sofreuem suas florestas e matas. Ressuscitou uma doença da fome que sejulgava enterrada. Tão remota que demorou para as autoridadessanitárias chamá-la pelo nome. Só após as primeiras mortes, é que veioa certeza: o beribéri, banido no século passado, estava de volta. Osurto iniciado em 2006 já matou 55 pessoas. Quase 700 casos foramnotificados e, apesar do cerco, a doença continua colecionando novasvítimas. E não se sabe até quando, porque é da pobreza que sealimenta. O beribéri é uma típica doença de carência. Maisespecificamente carência de vitamina B1. Um caso clássico de misériainterferindo na saúde.A área de Imperatriz, no oeste do Maranhão, e parte do Tocantins, noNorte do País, se transformaram no foco do surto. Um passeio pelaregião ajuda a explicar porque ali o beribéri chegou e se espalhou.Terra rica, população pobre. As fazendas se sucedem a perder de vista.Com o chão tomado pelo gado, os trabalhadores ficaram sem terra parasuas lavouras. Não há plantação de frutas nem de verduras. Só dearroz. O grão predomina nos campos e no cardápio do maranhense. Entreos mais pobres, é praticamente o único alimento consumido. E apreferência é pelo arroz polido, pobre em vitamina B1. O corpo fraco emalnutrido virou presa fácil para o beribéri atacar.Os efeitos da doença são terríveis. Começa com uma fraqueza naspernas, uma dormência que sobe dos pés para barriga, segue roendo osnervos. Os trabalhadores braçais são as maiores vítimas. O esforçofísico exige mais vitamina B1 do corpo, que, sem reposição, sucumbirapidamente. Dorielson Souza da Silva, 18 anos, viu a morte de perto.Ficou em coma por dez dias e não conseguia andar. Suas pernas incharame perderam a força. Arrastava-se segurando-se pelas paredes. O rapazpegou a doença quando trabalhava, horas e horas, nos campos de arrozdo município de Amarante do Maranhão. Melhorou, mas teve nova recaídano mês passado. "Desta vez, achei que não ia escapar", conta. Escapou,mas não quer mais saber de se matar, um pouco a cada dia, nas roças dearroz. Está procurando, sem sucesso, um trabalho menos desumano.A última vez que se ouviu falar de beribéri no Brasil foi no ciclo daborracha (1870 a 1910), quando a Amazônia foi assolada por umaepidemia que matou metade dos aventureiros nordestinos que haviam seembrenhados pela floresta para fazer fortuna com o látex que jorravadas seringueiras. Ao mapear sua Geografia da fome, o médico Josué deCastro se debruçou sobre a região amazônica e mostrou que nativos eimigrantes pagaram com a vida o preço de terem abandonado a lavoura ea pesca em nome da extração da borracha. Lá, assim como agora noMaranhão e no Tocantins, a doença se alimentou da extrema pobreza e daobsessão do homem em fazer riqueza a qualquer custo.
CAMINHOS DA FOME
As duas faces da capital do Fome Zero
Publicado em 05.09.2008
Se houvesse um mapa político da fome no Brasil, Guaribas estaria noseu epicentro. O município no Sertão do Piauí, marco inicial doPrograma Fome Zero, parece mais uma cidade-laboratório do governofederal. A vida ali se move em função do Bolsa-Família e dos R$ 82 milque o programa deposita todo mês no bolso de uma gente que depende deajuda oficial para comer. A cidade se divide entre os que têm e os quesonham ter o cartão. Ela própria só passou a existir para o País, em2003, ao virar vitrine do maior projeto de combate à fome lançado pelorecém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A descoberta mudoua cara do município, mas não o livrou do fantasma da fome.Existe hoje uma Guaribas dentro de Guaribas. A cidade ganhou oprimeiro salão de beleza, a primeira padaria, ruas foram calçadas e, omais revolucionário de tudo, a água agora sai das torneiras. Bemdiferente da época em que as mulheres passavam a noite e a madrugadadisputando, muitas vezes à tapa, um balde d'água. Mas a mudança nãochegou para todos. Em algumas áreas, sobretudo na zona rural, o atrasoe a miséria permanecem iguais ao tempo em que os quase cinco milmoradores viviam esquecidos do poder público.É um povo que continua vivendo do milagre de Deus. Porque dos homensse espera muito pouco. Salvador Pereira Dias, 26 anos, não entendeporque, mesmo passando fome, sua família não foi "abençoada" com ocartão do Bolsa-Família. Ele está há mais de um mês sem conseguir umdia de serviço. "Foram esquecer logo da gente? Só pode ser castigo",diz, num desconsolo de quem fala em nome da barriga, e não da razão.Basta ver o filho mais novo mamando para entender o desespero deSalvador. Domingas da Rocha Alves Dias, 25, a mãe, é mais osso do quecarne. Do peito quase não sai leite. Nem poderia. Sem nenhum tipo derenda, a família só come pela caridade de um e de outro. No dia em quea reportagem esteve na casa de Salvador, o que ele tinha conseguidopara almoçar era arroz com jerimum. Mas para a noite não havia nada. Aagente de saúde que acompanha o JC diz que, meses atrás, um dos trêsfilhos de Salvador estava comendo terra. E explica que isso é comumquando o organismo padece da falta de ferro. Salvador nega, diz que éum bom pai e cuida bem dos filhos, como se fosse culpa sua não ter oque comer.No livro Geografia da fome, Josué de Castro escreve que "nenhum paísdo mundo se prestaria, tanto quanto o nosso, para funcionar como umverdadeiro laboratório de pesquisa social do problema da fome". Já noscaminhos da miséria pelo Nordeste, nenhuma cidade expõe tão bem comoGuaribas o dilema existencial enfrentado pelos programas que sepretendem aplacar o sofrimento de gente como Salvador: ser ou nãoassistencialista? A estudante de sociologia Milena Souza, moradora dacidade, está fazendo uma tese que tenta encontrar algumas respostaspara a questão. Ao estudar o impacto do Bolsa-Família em Guaribas, eladiz que a vida melhorou, mas o povo ficou dependente da ajuda dogoverno. "Se tirar o cartão, a cidade afunda. Volta a ser a miséria deantes."
CAMINHOS DA FOME
Vassalos do eterno domínio do canavial
Publicado em 05.09.2008
De tudo que se podia germinar nos poucos metros de quintal, seu Joséescolheu em Primavera, Zona da Mata pernambucana, apenas uma planta:cana-de-açúcar, um solitário pé de cana-de-açúcar. Existe um fatalismosubliminar ao plantio aparentemente involuntário de seu José. Para elee tantos outros, a cana está no começo e no fim do ciclo, é dela quese nasce, só com ela se vive e é nela que se morre. O que muitoschamam de resignação, seu José poderia explicar, ainda que sempalavras, como a herança determinista que há séculos recobre oNordeste medieval, dos grandes feudos de açúcar, onde vassalos parasempre serão vassalos, onde a terra para sempre será cana. Apenasgrandes revoluções conseguiram derrubar sistemas consolidados comoesse. Mas José Ferreira de Oliveira é tão vitimado pela monoculturaquanto o solo é refém da cana. Homem e terra estão erodidos esobrevivem a despeito da adversidade. Sem revoluções.A história de seu José não é tão distinta das dos demais Josés quepassaram sua vida servindo aos canaviais. Dos 57 anos de vida, ele tem47 de cana e é esta última conta a verdadeira medida etária dapopulação da Zona da Mata nordestina. Desde criança até hoje, a rotinatem sido de foice na mão debaixo do sol impiedoso. Agora aposentado,ainda não se livrou do que se convencionou chamar de destino. Paracompletar a renda da família, ele trabalha no período de entressafra,no corte de cana para plantio de sementes e na cambitagem das mulasque sobem e descem com a carga das usinas. Para sustentar pernas ebraços, seu José almoça quase todos os dias o mesmo prato: quarenta,uma receita típica da região cujos únicos ingredientes são fuba eágua.Do trabalho matinal dos morros de cana ele parte, à tarde, para umterreno próximo onde seu ofício é alimentar os bichos de outrapropriedade. Bois, vacas e cavalos que comem também sempre a mesmaração: cana recheada de melaço. Na terra dos engenhos, o açúcar estáencruado na carne dos bichos e dos homens. Essa monotonia alimentar,alertava Josué de Castro, provoca fomes invisíveis no trabalhadorrural da Zona da Mata, abastecidos quase sempre de fuba e feijão,pobres em proteínas, porém suficientes para iludir corpos que, hoje,ganham um salário mínimo no corte de três toneladas por dia.Filho de pais que nasceram no Agreste, seu José lembra que, quandomais novo, ainda esquálido, passava mal em todo fim de jornada. "Obraço doía, eu me tremia todo", diz, lembrando que, na falta deopções, dormia de enfado, no cansaço que sustenta o sono dosbóias-frias.Com a idade, veio firmeza no braço e o irmão mais velho de seu Joséresolveu levar o rapaz de volta para o Agreste, em uma derradeiratentativa de se livrar do solo viciado da monocultura. Não deu certo.Foram dois invernos ruins, duas lavouras perdidas. Seu José fez ocaminho de volta. Novamente a serviço dos latifúndios, ele não apenasretomou o trabalho no corte, como também derrubou muita madeira paralimpar terreno para a cana, a mando dos "empreiteiros", como elechama. As árvores eram tão largas que os braços abertos de seu Josénão conseguem dimensionar o tamanho. Na tentativa de receber um poucomais, ele também passou um mês na mais insalubre das atividades: jogarveneno no mato dos canaviais. Os herbicidas, que até hoje vitimamtrabalhadores da cana com doenças, provocaram sintomas de intoxicaçãoem seu José: "O veneno subia pra cabeça, dava uma queimadura, umaborbulha de suor e a vista ia embora. Às vezes, eu ficava surdo".Nos últimos anos, ele precisou frear os esforços. A coluna dói a dordos anos curvados à realeza feudal da cana. "O bagaço humano dolatifúndio açucareiro", define Josué, clama por descanso. Seu José,aos 57, parece mais velho do que seu rosto demonstra. Diz que estásatisfeito, que é tudo assim mesmo e que vai bem de saúde. De todas asdoenças do mundo, ele só teme mesmo uma, a diabete. Que matou seuirmão e vários outros bóias-frias. Na "cultura autofágica" da cana,que devora tudo em torno de si, é do açúcar que se nasce e, muitasvezes, é dele que se morre.
CAMINHOS DA FOME
Homens e bichos na guerra pela salvação
Publicado em 05.09.2008
Caranguejos, gabirus e urubus são bichos de restos. Seres que seafundam, rastejam e voam para se alimentar dos despejos humanos eterminam muitas vezes confundidos com os próprios homens, cevadospelas sobras da prosperidade. Nestas duas páginas, homens e bichos sefundem, criando uma narrativa de gente que se faz bicho para resistir.Josué de Castro falou do homem irmão de leite dos caranguejos. ChicoScience releu o cientista nos versos de "Um caranguejo andando prosul/Saiu do mangue, virou gabiru/Ô Josué, eu nunca vi tamanhadesgraça/Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça". Como caranguejoque desafia a poluição dos mangues, como gabiru que rouba queijo paraalimentar a família ou como urubus que brigam por lixo para subsistir,essas pessoas estão aqui para falar de como é ser bicho na sociedadede homens-lobo.
CAMINHOS DA FOME
O queijo e o drama que se fala em voz alta
Publicado em 05.09.2008
"Com a mão trêmula como quem comete um crime." O crime trêmulo dafome. É assim que Josué de Castro descreve seu personagem retirante,Zé Luís que, deserto de comida e consciência, rouba queijo de coalhopara matar aquela que o matava. Está escrito no livro Homens eCaranguejos. Wandevergue também tremia quando decidiu roubar queijo,não de coalho, mas do-reino. No vertiginoso raciocínio de um homem jáembriagado de bebida e raiva, aqueles dois potes, que custavam juntosR$ 85, renderiam dinheiro suficiente para alimentar as sete criançasque os esperavam em casa. Wandevergue, assim como Zé Luís, foi pego emflagrante. E isso não está escrito em livro algum, mas registrado nosjornais, nas TVs, nas rádios.Há exatos 50 dias, Wandevergue foi notícia após roubar queijo em umsupermercado no Recife para tentar vendê-lo e, assim, voltar para casade mãos cheias, ainda que trêmulas. Terminou preso e, de seu relato defome, daquela que poucos admitem falar em voz alta, ganhou compaixão eliberdade após seis dias de prisão. Hoje, Wandevergue ainda viveabastecido pela solidariedade de vizinhos que ajudam a alimentar afamília com feijão, leite, bolachas e queijo. Mas os pressupostosembutidos na caridade incomodam o flanelinha."Eu vou endoidar senhora", profetiza em um não raro instante deexplosão. Wandevergue estoura para fora, em acessos de auto-afirmação,e estoura para dentro, deixando muitas vezes um concentrado silênciotomar conta da conversa. Até seis meses atrás, o flanelinha, os filhose a mulher grávida dormiam em papelões e um teto ora de chuva, ora dedesconsolo. Nunca de estrelas.Em uma dessas noites, o carro da assistência social parou.- Essa é sua família?- É sim senhor.- Qual o nome dos seus filhos?- Fuba, leite, feijão, arroz, açúcar...- E qual o seu nome?- Eu sou ninguém.- Você é louco?- Eu não sou louco não, não tá vendo que todo mundo tem fome aqui?Mas o assistente social foi embora. Parecia não entender demetonímias. E o morador da rua, sem jamais ter ouvido falar em figurasde linguagem, engoliu seco novamente.Wandevergue Rosas Paiva, 41 anos, estudou apenas até a 4ª série doensino fundamental, perdeu a mãe para a violência e do pai só lembrado carro Brasília com que ele viajou para São Paulo. Vive dos trocadosque ganha como flanelinha, nunca teve carteira de trabalho e somaagora duas passagens pela prisão. A primeira aconteceu 92 porenvolvimento com drogas. Sua companheira, Andréia Miguel dos Santos,32, recebe uma Bolsa-Família de R$ 122 que, além de ajudar na feira,paga também as 10 parcelas de uma pequena TV onde a família pôdeassistir, pelos jornais, à novela não romanceada de Wandevergue.Para o futuro, o flanelinha fala da promessa de uma carroça que podemudar sua vida. "Um senhor ofereceu essa carroça pra mim e se alguémtrouxer ela pra cá, vou vender pastel, bolo, coxinha e espetinho. Oque eu não conseguir vender, trago pros meus filhos." O testemunhosaliva de boas intenções e prova que, no Brasil, alimentar é, antes detudo, saciar.
CAMINHOS DA FOME
A carapaça espessa dos resistentes
Publicado em 05.09.2008
Seu Eliezer e Jorge lançaram a aposta. Para provar que caranguejo nosmangues do Recife era tão escasso quanto a obediência pelas ordens danatureza, eles se deitaram sobre o atoleiro do manguezal, em busca dospoucos caranguejos que teimam em sobreviver no revés do meio. Em duashoras de braços afundados na lama, sete bichos. Sete heróis. Há 20anos, Jorge lembra que apenas em meia hora, "já teria pelo menosquatro cordas". Cada corda são 12 caranguejos.Por trás das avenidas do bairro nobre de Boa Viagem, Eliezer Marcolinoda Silva, 68 anos, e Jorge José da Silva, 46, se esticam em direção aburacos vazios. Os esgotos de Boa Viagem entupiram de vez os pulmõesdo mangue. Hoje, no manguezal do Recife, é fácil contar caranguejos namão. Difícil é somar as garrafas PET e lâmpadas velhas espalhadas pelogrande apagão que virou a pantanosa vegetação da cidade.Dois dos mais antigos e experientes pescadores de caranguejo dacomunidade da Ilha de Deus são hoje pequenos proprietários de viveirosconstruídos com o aterro do mangue. E neles só o que dá é camarão,crustáceo de linhagem mais nobre, mas nem por isso mais valiosa àrenda desses pescadores. Ganham próximo a um salário mínimo por mês."Leite, roupa, tudo era do caranguejo. Chegava a pegar 150 cordas numdia, meu cunhado pegava 200", lembra Seu Eliezer. Jorge exibedesencorajado as várias armadilhas de laço achadas no caminho. Elassão colocadas na lama e sotrancam caranguejos grandes e pequenos emsua teia.Mesmo com a experiente coreografia que imita as posições do bicho dalama, Jorge é vencido pelas dificuldades. Tal qual um caranguejo sempatola - perdeu um dos braços aos 4 anos na linha de um trem quetransportava o açúcar das usinas pernambucanas - ele demonstracumplicidade de guerreiro com suas presas. Quando finalmente acha obicho, o trata com o carinho de quem reconhece a perseverança da caça:"Venha meu amor, venha meu querido", chama o pescador que, naspalavras de Josué, tem "o corpo coberto da carapaça espessa da lamacomo se fosse uma verdadeira armadura".
CAMINHOS DA FOME
A iminente queda da gente-urubu
Publicado em 05.09.2008
São três irmãs, todas Marias, que cresceram cortando cana noslatifúndios de usinas alagoanas e hoje usam suas mãos para venderbagaço, não da cana, mas da cidade, em demarcados minifúndios de lixo.Maria de Fátima dos Santos Silva, 43 anos, Antonia Maria dos SantosSilva, 49, e Maria Cícera da Silva, 54, têm pais diferentes, uma mesmamãe e vários urubus para testemunhar suas histórias, como cúmplices deconversa e de ofício.Catadoras do lixão da cidade de Toritama, no pólo têxtil do Agrestepernambucano, elas vivem à margem de uma estrada e de qualquerbenefício social. Ainda lembram quanto pesa uma tonelada de cana,sabem quanto rende um caminhão de lixo e, no olhar desconfiado doprimeiro contato para uma entrevista, revelam também ter consciênciados custos da dignidade.Seus relatos, ainda que muitas vezes encerrados com poucas palavras,contam da vida dos retirantes da cana, aqueles de quem só se retira ese mói. A mais velha, Maria Cícera, cisma. Diz que sua foto no sofá dolixo servirá apenas para "o povo mangar de mim." Acostumada aosolhares cheios de juízos, Ciça, como ela é chamada, não tem tempo paramuita conversa. Seu caminhão de lixo acaba de chegar e o serviço vaiaté o fim do dia. Com a resignação própria de quem desconhece outrarealidade senão a da opressão, ela diz que o lixo é dos males o menor.Lembra que à época do canavial, quando passava das 4h às 7h da manhãem cima do "gaiolão" para chegar no corte da cana, era um tempo demuito mais fome.Maria de Fátima, a irmã mais nova, disfarça suas mãos do cenáriocaótico do lixo com anéis achados nos despejos de quem tinha pratasmais valiosas. Sorri em desconcerto e um dos rapazes que faz a coletada hora não deixa por menos: "Tá famosa agora. Até parece Ana MariaBraga. Só falta o Louro José". Ele se cala, mas, com um trocadilhoachado de repente, grita: "Mas aqui é Urubu José!" Maria de Fátimasofre de depressão e lembra que já sonhou muito o mesmo pesadelo: "Eufechava os olhos e caía dentro de um buraco."A queda, em sonho ou fora dele, parece sempre iminente para estafamília repartida nos retalhos de jeans e de lixo que se amontanham nabeira da estrada. Caminhando nas margens desse fosso social, em um solde meio-dia, Antonia Maria diz sem vergonha da exposição: "Até umahora dessa não tomei nem uma xícara de café." Ela sofre de pressãoalta, já fez cinco cirurgias e, assim como a irmã mais nova, precisade remédio controlado. Diz que consegue até R$ 400 por mês com o lixo,mas precisa pagar R$ 100 para ter direito ao despejo de um caminhãointeiro - tal como os urubus que brigam pela carniça, os homensprecisam se ferir para levar a sua parte. Sobram assim quase R$ 300para pagar a feira, energia e os remédios. Sem pílulas, ela se lembrade vozes: "Ouvia dentro de mim: corre, corre, corre." Para onde?
CAMINHOS DA FOME
Esperança verde brota no horizonte
Publicado em 05.09.2008
Na Paraíba, áreas para plantação de frutas e verduras sem agrotóxicosmostram que a agricultura familiar ajuda a mudar a sina de sertanejosNinguém acreditou quando a agricultora Maria Verônica de Oliveira, 32anos, Verinha para os de casa, resolveu plantar no quintal fruta everdura sem agrotóxico. Tinha perdido o juízo. Ali, no Sertão daParaíba, só se falava em milho e feijão. Era a ladainha de sempre.Plantar e esperar que São Pedro ajudasse. Ela não quis conversa.Verinha só estudou até a 2ª série, nunca ouviu falar de Josué deCastro, mas, sem saber, seguiu ao pé da letra o conselho que o maiorestudioso da fome deixou de ensinamento: "O homem de hoje deve criar oseu futuro. Para não ser esmagado por ele". Pois foi o que Verinhafez. Foi criar o seu futuro e hoje ele é verde e próspero. Em poucomenos de meio hectare, fez uma revolução.Dá gosto ver o quintal da agricultora, na zona rural do município deMonteiro. Alface, berinjela, mamão, acerola, tudo fresquinho esaudável. Associada a outros trabalhadores, ela vende sua produção nafeira livre e nos supermercados da cidade. Comprou moto, geladeira,carro. A história de sucesso de Verinha foi um casamento de ousadiacom oportunidade. A ousadia já nasceu com ela e a oportunidade surgiuquando os técnicos do Projeto Dom Hélder Câmara bateram em sua porta.Eles chegaram com uma conversa de agricultura familiar que agradou osouvidos da agricultora. Ela enxergou ali a chance de reinventar seudestino. Tinha razão. Em todo o semi-árido, é a agricultura familiarque está mudando a sina Severina do sertanejo de fome e privação.No Nordeste ela já responde por 84% da mão-de-obra ocupada na zonarural. Emprega sem precisar de patrão. Dá sustentabilidade ealternativa onde antes havia apenas fome e desolação. Só o Projeto DomHélder, financiado pelo governo federal, tem ações em seis Estados daregião e investe, por ano, em torno de R$ 17 milhões. No Rio Grande doNorte, quem está animado com a novidade é o agricultor FranciscoAntônio da Penha, 47. Ele e outras 30 famílias moram em duascomunidades miseráveis, que viviam de arrancar lenha para fazercarvão, mas de nome esperançoso: Sombras Grandes e Milagres, nomunicípio de Caraúbas, no Sertão do Apodi.Lá, como na Paraíba, a agricultura irrigada abriu espaço na caatingapara a lavoura de frutas e hortaliças. "Até os passarinhos estão maisfelizes", diz seu Francisco. A maior felicidade do agricultor é saberque seus meninos agora comem três vezes no dia. "Quando vivia no mato,vivia morrendo de fome. Desde que o projeto da horta começou, nãoarranquei mais um pé de pau e a comida não falta mais. E sempre comuma carninha", faz questão de dizer, sabendo o luxo que issosignifica.Em Ribeirão, na Zona da Mata pernambucana, o cenário é de cana e nãode seca. Mas a necessidade de se reinventar para não morrer de fome éa mesma. Paulo Sebastião cresceu e se formou na terra. Um casamentoherdado de nascimento, embora por muito tempo só pudesse usar essechão para desfrute de outros amantes: os donos de usinas que fizeramPaulo e tantos outros carregarem toneladas de cana ainda na infância eadolescência. Aos 18 anos, ele se despediu desta mesma terra e partiurumo à capital pernambucana, procurar matrimônios menos sofridos efamintos.Na cidade, foi pedreiro, servente, vigilante e cobrador de ônibus.Veio o desemprego e Paulo, conhecido pelo apelido de Paciência, soubeda desapropriação de alguns poucos hectares na mesma Zona da Mata deonde ele havia partido. Ele voltou à zona rural, vingando as palavrasde Josué: "Este desadorado amor à terra que sempre lhe fez sofrer, fazcom que o homem do Nordeste a defenda sempre (...) como se ela fosseuma mulher. É como se ele não pudesse viver longe dela, exilado desteamor". Paciência, após 20 anos no exílio da cidade, fincou seu barracode lona até que finalmente conseguiu seus cinco hectares.Agora cercado pela paisagem uníssona da cana-de-açúcar, na zona ruraldo município de Ribeirão, e com a ajuda da capacitação da ONG Sabiá daMata e da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ele conseguiuconstruir um ambiente onde existem 46 tipos de fruteiras e 48 tipos demadeira. Paciência, a despeito de sua alcunha, fala rápido o que vê empoucos metros quadrados: abacaxi, açaí, banana, cacau, cajá, caju,café, cupuaçu, fruta-pão, jambo, mamão, manga, maracujá, pimenta doreino, pitanga e até mesmo cana-de-açúcar orgânica.Foram três anos para recuperar o solo já ácido e erodido pelamonocultura típica da região. A técnica para tanto é chamada deagroflorestamento, onde veneno e enxada são proibidos. Com as chamadasplantas adubadoras, ele dispensa químicos e colhe tudo com a mão,alternando sempre o local onde diferentes espécies são plantadas. Sealimenta de tudo o que colhe e escoa o excedente de sua produção emmercados locais de produtos orgânicos.O próximo passo de Paciência é beneficiar alguns de seus frutos. Acabade comprar uma casa de farinha e um engenho para fazer açúcar eplaneja conseguir um freezer para armazenar polpas. "Quando chegueiaqui e comecei a plantar as árvores, teve gente que parava perto eperguntava se eu ia comer pau. Mas isso aqui é a solução para opequeno agricultor", diz Paciência. Verinha e seu Antônio, que estãodomando a aridez do Sertão, concordam com ele.
CAMINHOS DA FOME
Gordos, mas mal alimentados
Publicado em 05.09.2008
Xiquexique, nome de planta seca e espinhosa, é também como se chama acomunidade mais pobre da zona rural de Caruaru, Agreste pernambucano.Lá, a água chega quinzenalmente em um caminhão e a única linha detelefone fixo vem de um orelhão, volta e meia quebrado. Mas a situaçãode negligência em que vivem os moradores, antes de refletir um cenáriotão seco e magro como a planta que batiza a região, disfarça suascarências e engana por seus excessos. Entre as 125 famílias deXiquexique, não é difícil encontrar os personagens da epidemia de umoutro tipo de fome, não mais esquálida, e sim gordurosa. A essaepidemia Frei Betto, um dos mentores do programa Fome Zero eex-assessor da Presidência da República, dá o nome de "fome gorda".Pois é a "fome gorda" da falsa fartura que hoje se vê em terrasremotas e carentes como Xiquexique, onde termos médicos como sobrepesoe obesidade servem de eufemismo para gordura, palavra tão depreciadaquanto a atenção que se dá a essa população. Madelon Pereira de Lima,35 anos e 127 quilos, é líder comunitária da região e, como tal,conhece bem as disfunções do esquecimento. Diz que em época de invernoruim tem família por perto que chega a desmaiar de fome. Enquantoisso, outros vizinhos engordam.Madelon foi deixada por sua mãe biológica em uma caixa de papelão.Desconhece os motivos do abandono, mas conclusões médicas dão pistassobre a situação alimentar em que ela foi largada. Uma das maiorescausas da obesidade em populações de baixa renda é a má nutrição nainfância, particularmente durante a gestação e no primeiro ano devida. Distúrbios glandulares podem ser provocados pela deficiência devitaminas nessa fase. Como efeito da gordura, Madelon sofre hoje comcãibras na nuca e no abdome. Tem dois filhos, um deles um menino de 9anos com 72 quilos.Para a ciência, Madelon está acima da linha de obesidade mórbida. Paraela, a ciência está longe de resolver seus problemas: "Quando meaperreio, eu engordo. E, do jeito que me aperreio por aqui, vouterminar explodindo".
ENTREVISTA » LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA"
O País está vencendo a fome"
Publicado em 05.09.2008
A trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem raiz nasquestões da fome. Sua infância de barriga dilatada e do prato vaziomoldaram a primeira meta de seu governo: alimentar todos osbrasileiros. A maior bandeira política de seus dois mandatos ganhabatalhas a cada vez que o IBGE publica pesquisas com os índices sobrea redução da pobreza no Brasil. Mas ainda está longe de vencer aguerra que pune milhões de pessoas, vítimas dessa grande doençapolítica. Nesta entrevista dada com exclusividade ao Jornal doCommercio, o presidente não economiza números para provar os avançosdo País na área da segurança alimentar, embora admita que aindaexistam problemas, como revela as histórias publicadas neste caderno.Lula fala sobre os benefícios do Bolsa-Família, sustenta oinvestimento do governo na agricultura familiar e diz que Josué deCastro ensinou aos brasileiros que a desigualdade não pode ser tratadacomo destino.
JORNAL DO COMMERCIO - Em seu primeiro discurso como presidente eleito,o senhor afirmou que se, ao final do mandato, todos os brasileirostivessem como tomar café da manhã, almoçar e jantar teria cumprido amissão de sua vida. Mas a fome persiste no País. Por que o governo nãoconsegue vencer esse mal?
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA - O Brasil está vencendo a fome. Numa açãoconjunta dos governos federal, estaduais e municipais e a sociedade, oPaís vem resgatando uma dívida social histórica com a população maispobre. O governo federal nunca investiu tanto na área social. Em 2003,destinamos R$ 11,4 bilhões para os programas de assistência social,segurança alimentar e transferência de renda. Em 2008, estão previstosR$ 28,5 bilhões. Mais do que o dobro de cinco anos atrás. E osresultados já aparecem: entre 2003 e 2006, a redução da pobreza foi de31,4%. Catorze milhões de pessoas superaram a condição de miséria. Aconcentração de renda no País atingiu, em 2006, o menor índice dosúltimos 30 anos. O Bolsa-Família, presente em 11 milhões de lares, foiresponsável por 21% da queda da desigualdade. De acordo com o últimoRelatório de Desenvolvimento Humano da ONU, o Brasil ficou, pelaprimeira vez, no grupo de países de alto desenvolvimento humano. OBolsa-Família, o crescimento do emprego, o aumento do salário mínimo ea baixa inflação são os principais motivos para este desempenho nosúltimos três anos. Além disso, a desnutrição infantil caiu de 1996 a2006, de 13% para 7%. A redução mais expressiva foi justamente noNordeste: de 22% para 5,9%. De 2004 para 2006, a redução davulnerabilidade à fome, que os técnicos chamam de insegurançaalimentar grave, caiu 25%. Ou seja, a insegurança alimentar grave estáse tornando moderada porque há mais comida nos lares onde há programasde transferência de renda. Entre as crianças beneficiárias doBolsa-Família, por exemplo, 94% fazem três ou mais refeições por dia.Isso não quer dizer que não existem problemas, mas mostra que estamosempenhados em resolvê-los. É com comida na mesa todos os dias que secomeça efetivamente o caminho para a cidadania.
JC - O Bolsa-Família aumentou o acesso da população mais pobre àalimentação. Mas o programa não conseguiu reverter a condição demiséria desses brasileiros. Como garantir que essas famílias tenhamcondições de um dia viver sem a ajuda do governo?
LULA - Quando criamos o Bolsa-Família ouvi muitas críticas que diziamque o programa era esmola, que nós devíamos fazer estradas. Eu sempredisse que, se eu tiver que escolher entre fazer um viaduto e encher abarriga das nossas crianças, vou primeiro cuidar da fome. Por issochegamos ao Bolsa-Família, que tem o objetivo imediato de combater afome e assegurar a presença das crianças e adolescentes na escola. Osnúmeros que eu citei na pergunta anterior mostram que o programa temtido um peso importante na redução da miséria. A verdade é que oBolsa-Família tem dado às famílias pobres as condições iniciais de sereestruturarem para buscarem a reinserção no mercado de trabalho. Ogoverno tem feito a sua parte ao garantir as condições para o Brasilcrescer como não vinha fazendo há muitos anos. Com a economiaaquecida, aumenta o consumo e a oferta de empregos. E é com a geraçãode novos empregos que os beneficiários do Bolsa-Família começam a daro salto para melhorar de vida e deixar de depender da transferência derenda do governo. Desde 2003 já são 9,8 milhões de empregos formaisgerados no País. E eu gostaria de dizer aqui que, ao contrário do quese dizia antes, os beneficiários do Bolsa-Família não se acomodam.Dados do IBGE apontam que 77% das famílias beneficiadas peloBolsa-Família procuram empregos contra 74% das que não participam doprograma. O ministro Patrus Ananias me disse recentemente que todo odia recebe dezenas e dezenas de cartas de pessoas devolvendo o cartãodo programa porque não precisam mais da ajuda. Para incentivar aindamais a entrada dos beneficiários do Bolsa-Família no mercado detrabalho, o governo federal criou este ano o Plano Setor deQualificação do programa, que vai, num primeiro momento, capacitar 185mil beneficiários na área da construção civil para empregá-los nasobras do PAC em ocupações como as de pintor, azulejista, encanador,carpinteiro, mestre de obras, desenhista, eletricista, operador detrator, gesseiro, auxiliar de escritório e almoxarife. O setor daconstrução civil está sendo o primeiro neste processo por estar emplena expansão no País, mas a nossa idéia é levar esta parceria tambémpara outros segmentos.
JC - Embora os recursos para a agricultura familiar tenham crescidonos últimos anos, o setor agrícola do País ainda concentra seusgrandes investimentos no agronegócio. Inverter essa lógica não seriaum caminho mais estruturador para enfrentar o problema da fome?
LULA - É preciso entender que temos mais de um caminho a seguir. E umcaminho não exclui o outro. Apresentamos, em julho passado, o maissólido plano de safra para a agricultura brasileira, envolvendo tantoa agricultura empresarial quanto a agricultura familiar. É um PlanoSafra que envolve R$ 78 bilhões, sendo R$ 65 bilhões para oagronegócio e R$ 13 bilhões para a agricultura familiar. Sãoinvestimentos recordes. Ora, se nós temos terra, temos agricultores,temos tecnologia, temos água e temos sol, nós temos que usar todos osrecursos e todos os caminhos. Agora, essa estruturação da agriculturafamiliar que você fala é realmente de fundamental importância e jáestá em pleno andamento. Faltava financiamento, mas nós temos hojepossivelmente o mais relevante programa de financiamento de máquinas eimplementos agrícolas para os trabalhadores rurais da agriculturafamiliar. O nosso Plano Safra Mais Alimentos foi criado justamentepara reestruturar de imediato as propriedades da agricultura familiar.Isso acontece com mais assistência técnica, financiamento a jurosbaixos, política de preços e disseminação da tecnologia no campo. Alémdisso, serão mais R$ 25 bilhões de financiamento do BNDES até 2010. Oagricultor terá uma linha de financiamento de até R$ 100 mil, comjuros de apenas 2% e o longo prazo de 10 anos para pagar. Os recursospara assistência técnica, por exemplo, aumentamos em 230%. Vamosfinanciar 60 mil tratores para os pequenos agricultores do País.Trata-se de uma verdadeira revolução. O agricultor vai comprar umtrator de 75 cavalos, pagando cerca de R$ 10 mil a menos que o preçode mercado. Também não podemos esquecer que acabamos de criar aPetrobrás Biodiesel, que tem como um dos pilares o desenvolvimento daagricultura familiar no nosso país. É por tudo isso que eu tenhocerteza absoluta que a agricultura familiar pode oferecer resultadosrápidos no aumento da produção, com o crescimento da produtividade, emmuitos dos itens da cesta básica. Esta será uma das maiores safras dahistória, com produção recorde, e com o crescimento expressivo daagricultura familiar para ajudar a enfrentar a crise nos preços dosalimentos. Esse é um dos rumos que estamos seguindo.
JC - O senhor já afirmou que os usineiros deixaram de ser vistos comovilões para serem heróis, "porque todo mundo está de olho no álcool".Como aproveitar o momento favorável para os biocombustíveis, semreproduzir os erros do passado, fruto de um modelo de monoculturaexcludente e amparado pelo Estado?
LULA - O Brasil há muito tempo deixou de ter um modelo de monocultura.O País, por reunir todas as condições de um grande produtor agrícola(clima, terra, tecnologia, gente qualificada e estrutura de produção)mostrou sua capacidade de trabalhar com diversas culturas e se tornarauto-suficiente em quase todos os produtos agropecuários. A safrabrasileira de grãos não pára de bater recordes e aponta crescimento dequase 10% no ciclo 2007/2008, atingindo 143 milhões de toneladas. Tudoisso mostra que a produção de alimentos no Brasil continua sendoprioridade, é capaz de abastecer todo o mercado interno e ainda temconquistado cada vez mais o mercado internacional. Os números provamque não há competição entre alimentos e biocombustíveis. Acana-de-açúcar, nossa principal matéria-prima para produção debiocombustíveis, ocupa menos de 2% das terras agricultáveis. Destetotal, metade é usada na produção do etanol e o restante vai para afabricação de açúcar. Mesmo que esta produção dobre, ainda sim asplantações de cana irão ocupar uma parte muito pequena das áreasdisponíveis no País. Também é importante saber que o governo estáfechando uma política para o plantio de cana. Está em fase final estadiscussão feita com base num estudo, o Zoneamento Agroecológico daCana, que dará as diretrizes para o governo delimitar onde se poderáplantar a cultura considerando a sustentabilidade econômica, social eambiental. A cultura da cana pode e já está prosperando em áreasdegradadas de pastagens. Ou seja, com ganho de produtividade, o Paíspode crescer a produção de cana sem reduzir a de carne ou de qualqueroutro produto agrícola.
JC - Josué de Castro é um nome de referência no mundo para aqueles queestudam a fome como um fator político. Mas o que a política tem aaprender com Josué de Castro?
LULA - Como um pioneiro na luta pelo direito à alimentação, Josué deCastro nos ensinou que a vontade coletiva de uma nação pode e devesuperar a injustiça social. Ao desvendar a verdadeira face da fome,ele nos mostrou que combater esse mal não pode ser apenas uma opçãoadministrativa de um governante, mas, antes de tudo, um deverpolítico, um compromisso para tornar a democracia política também umademocracia social. No Brasil, existiu por muitos anos - e,infelizmente, ainda resiste em muitos lugares - uma lógica perversa deutilizar os mais humildes em proveito de uma minoria de privilegiados.Tirava-se proveito da pobreza, da urgência e da fome, para ganhareleições e perpetuar a situação. O combate à pobreza não entravaverdadeiramente na agenda do Estado, era apenas mais um processo quedeveria ser resolvido espontaneamente pelo mercado. Mas adesigualdade, o Josué de Castro nos ensinou, não pode ser tratada comoum destino, uma realidade imutável para os excluídos. Seus pensamentose obras são importantes inspiradores da atual Política de SegurançaAlimentar e Nutricional, que transformou o direito à alimentação emPolítica Pública de Estado. Um pequeno reconhecimento da suaimportância é a criação do Prêmio Josué de Castro de Boas Práticas emGestão de Projetos em Segurança Alimentar e Nutricional, em homenagemao centenário do seu nascimento.

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