segunda-feira, 20 de abril de 2009

Dom Luiz Flávio Cappio diz que morre pelo rio!


Luiz Ribeiro - Estado de Minas

O projeto de transposição das águas do Rio São Francisco está cheio de irregularidades e não deverá ir para a frente. A afirmação é do bispo de Barra (BA), que se intitula “dom frei” Luiz Flávio Cappio, conhecido mundialmente pela luta em defesa da preservação do Velho Chico, depois de fazer duas greves de fome – em 2005 (por 11 dias) e em 2007 (23 dias). Sua intenção com o protesto extremo era interromper as obras do megalomaníaco projeto do governo Lula, que prevê investimentos de R$ 4,5 bilhões. Não conseguiu seu intento, mas diz que não se considera frustrado, já que seu esforço resultou em repercussão internacional e na conscientização para a preservação do meio ambiente. “Tenho tanto amor à vida que estava disposto a dar a minha pela vida.” Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, dom Cappio reafirma que o governo faz “propaganda enganosa” ao divulgar que o projeto visa a levar água aos necessitados do Nordeste.
Por que o senhor decidiu levantar a bandeira da luta em defesa do Rio São Francisco?
Pelo fato de ter tomado consciência de que o Rio São Francisco é o pai e a mãe de milhões de pessoas no semiárido brasileiro. São milhões de seres humanos que dependem da água do rio para a sobrevivência. Então, querer vida e abundância para o povo é querer vida para o Rio São Francisco. Se o rio estiver bem e com saúde, o povo estará da mesma forma. Se o rio estiver doente, o povo também vai adoecer. Se o rio vier a morrer, o povo morrerá junto. Então, nossa luta pelo rio é a luta pela vida do povo.
Em 1992, o senhor fez uma viagem da nascente à foz do rio. Quais os objetivos da peregrinação?
Foi uma peregrinação ecológica e religiosa, iniciada em 4 de outubro de 1992, na Serra da Canastra, onde ele nasce, e concluída em 4 de outubro de 1993, no Nordeste, onde o rio se joga no mar. Os objetivos da peregrinação foram três. Primeiro, fazer o povo tomar consciência de que o rio é um grande dom de Deus. Em segundo, observar e fazer um levantamento de todas as causas que estavam – e ainda estão – levando o rio à morte. E, em terceiro lugar, chamar o povo para a defesa do São Francisco.
Mas o que se constatou na ocasião?
Constatamos a degradação veloz do rio, que está condenado à morte. Que se não houver um processo de impedir o impacto de devastação, em breve teremos um rio morto.
E na sequência, o que aconteceu?
Naquela época não se falava ainda em transposição. Logo que saiu a notícia do projeto da transposição, procuramos conhecê-lo a fundo. Quando vimos que o objetivo da transposição não era levar água para o povo, mas para grandes empreendimentos agroindustriais, fizemos de tudo para impedir que o projeto prosseguisse. Toda a sociedade civil também estava contrária ao projeto. Quando percebemos que o projeto seria executado, assumimos aquela atitude bastante agressiva, o jejum da oração, que foi importante para chamar a atenção do governo, da sociedade brasileira e do mundo contra esse projeto megalomaníaco.
O que o levou a um movimento extremo como a greve de fome?
Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho. Usamos todos os meios, todos os argumentos contra o projeto. E, quando digo nós, quero dizer a sociedade civil, as universidades, ONGs, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, todos aqueles que se preocupam com o São Francisco. Quando todos os argumentos não tiveram valor, o jejum da oração foi um grito desesperado em defesa da vida, para que, em primeiro lugar, o governo, e depois o povo brasileiro e o mundo tomassem consciência do absurdo que é o projeto de transposição.
No momento em que fazia a greve de fome, o que o senhor sentia realmente?
Era um sofrimento imenso, mas eu fazia com muita fé, muita dedicação, muita esperança de que aquela atitude servisse para que o povo tomasse consciência sobre o valor da vida. Tenho muito amor à vida. Não queria morrer. Queria viver. Tenho tanto amor à vida que estava disposto a dar a minha pela vida.
O senhor acha que valeu a pena o sacrifício?
Acho que valeu a pena, porque isso fez com que o Brasil inteiro tomasse consciência da situação, não somente em relação ao Rio São Francisco, mas ao meio ambiente como um todo. Hoje, temos o mundo inteiro olhando para o testemunho dado no Brasil na luta do povo em defesa do meio ambiente. Nós, não somente eu, mas o povo do Rio São Francisco, nos tornamos um paradigma para a luta em prol do meio ambiente. Por exemplo, a luta recebeu prêmios internacionais de entidades da Bélgica e da Alemanha. Infelizmente, o governo brasileiro se mantém cego, surdo e mudo diante do grito do povo.
Apesar da repercussão da greve de fome e dessa luta, o senhor não conseguiu interromper a obra da transposição. Ficou frustrado?
Lógico que a gente gostaria que a obra já tivesse sido interrompida. Mas não acredito que ela vá adiante. É como sempre digo: um computador cheio de vírus, mais cedo ou mais tarde, vai parar. E essa obra está cheia de vírus, está cheia de irregularidades de todas as ordens: ética, política, econômica, social e ecológica. Então, ela está toda irregular. Não acredito que vá para a frente, tanto é que as empresas contratadas estão desistindo dos trabalhos. Quem está lá? É o Exército Brasileiro, a mando do governo, fazendo o trabalho de infraestrutura.
O senhor fala em irregularidades nas obras de transposição. Mas quais são elas?
Em primeiro lugar, é uma obra anticonstitucional. Prioriza segurança hídrica para os projetos agroindustriais e econômicos. Desvirtua a função da água, que é matar a sede humana e animal. Isso torna o projeto antiético e anticonstitucionall. A Constituição Brasileira não permite que a água seja colocada em primeiro lugar para o uso econômico, em detrimento do atendimento aos seres humanos.
Mas o governo sustenta que o objetivo da transposição é levar água a quem tem sede. Isso não é uma pregação bíblica?
Em um grande debate no Senado, em 14 de fevereiro de 2008, pela primeira vez, o deputado Ciro Gomes e o ministro (da Integração Nacional) Geddel (Vieira Lima) disseram que o objetivo do projeto da transposição não é a dessedentação humana e animal, mas segurança hídrica para os projetos agroindustriais. Infelizmente, o governo continua com sua propaganda enganosa.
O governo divulga, que ao mesmo tempo em que executa as obras de transposição, faz a revitalização do rio. Como o senhor vê isso?
O governo não tem interesse nenhum na revitalização. O projeto de revitalização veio para camuflar e tornar palatável a transposição. Hoje, tudo que se faz no São Francisco é (pago) com o dinheiro do projeto da revitalização.
Que futuro o senhor vê para a Bacia do São Francisco?
Se conseguirmos deter a devastação, o São Francisco continuará vivo e gerando vida para as futuras gerações. Mas, se não mudarmos esse quadro, inclusive da transposição e de todos os projetos de monocultura ao longo do vale, vejo um quadro muito sombrio. No dia em que o São Francisco vier a morrer, o semiárido brasileiro morre junto.

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